Educação é um tema curioso. Basta surgir uma notícia sobre escola que aparecem milhares de especialistas. Todo mundo tem uma opinião. Todo mundo sabe o que o professor deveria fazer, como a escola deveria funcionar e o que precisa mudar. Afinal, quase todos passaram pela escola. Mas uma coisa é ter sido aluno. Outra, bem diferente, é entender como a educação funciona.
A discussão da vez é a mudança no calendário escolar de 2027 por causa da Copa do Mundo Feminina. Bastou a notícia circular para surgirem frases como: “Trinta dias de férias? É um absurdo!” e, logo em seguida, alguém lembra dos famosos 200 dias letivos. Engraçado é que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação costuma ser lembrada apenas quando ajuda a sustentar um argumento. Fora disso, ela passa o ano inteiro pegando poeira.
A lei continua exigindo os 200 dias letivos. Ninguém acabou com isso. O que mudou foi a organização das férias para coincidir com a Copa. Ou seja, antes de escrever um textão na internet, talvez valha a pena ler duas ou três páginas da legislação. Não costuma doer.
Mas esse não é o único assunto em que todo mundo tem uma solução pronta.
Outro debate aparece todos os anos: por que as aulas começam às sete da manhã? Há quem diga que o adolescente precisa dormir mais. E precisa mesmo. A ciência mostra isso. Agora, alguém já perguntou por que o professor também acorda antes do sol nascer?
A resposta é simples. Porque boa parte dos professores trabalha em mais de uma escola. Sai correndo de uma para outra, muitas vezes em cidades diferentes, tentando fechar uma carga horária que permita pagar as contas no fim do mês. Se as aulas começassem às oito ou às nove, muita gente teria que escolher entre um emprego e outro. Mas isso quase nunca entra na discussão. O professor parece ser um detalhe na educação.
Aliás, o professor virou um personagem curioso. Quando um aluno aprende, foi obrigação dele. Quando um aluno não aprende, a culpa também é dele. Se falta educação em casa, o professor resolve. Se falta limite, o professor resolve. Se a sociedade muda, o professor se adapta. Parece até um aplicativo: disponível o tempo todo e sem direito a atualização.
Recentemente, um deputado de Minas Gerais defendeu o ensino domiciliar dizendo que não se pode deixar os filhos com desconhecidos. Fiquei pensando nessa lógica. Quando chamamos um carro por aplicativo, conhecemos o motorista? Quando marcamos uma consulta, conhecemos o médico antes de entrar no consultório? Quando embarcamos em um avião, conhecemos o piloto? Curiosamente, o único profissional que precisa provar todos os dias que merece confiança parece ser o professor.
É claro que a educação precisa ser discutida. E quanto mais gente participar desse debate, melhor. Mas seria interessante que, antes de opinar, as pessoas conhecessem um pouco mais da escola de hoje. Não daquela escola da época em que eram alunos. A escola mudou. A legislação mudou. Os estudantes mudaram. Só uma coisa continua igual: todo mundo acha que entende de educação.
E talvez seja justamente esse o maior desafio da escola brasileira. Não é convencer as pessoas a falar sobre educação. É convencê-las a ouvir quem vive a educação todos os dias.
Todo mundo entende de educação. Ou pelo menos acha que entende.
"Uma coisa é ter sido aluno. Outra, bem diferente, é entender como a educação funciona"
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