Outro dia, fui interpelado por um conhecido que sabia da minha atuação como educador há mais de quinze anos. Em tom depreciativo, não apenas desmereceu à docência como também afirmou, de maneira categórica, que a faculdade “não serve para nada”. Para sustentar sua posição, recorreu a uma frase de efeito,  “faculdade é para formar Uber com assunto”,  dita com a segurança típica de quem nunca frequentou uma universidade e que costuma reproduzir generalizações simplistas sobre o ensino superior, sejam elas dirigidas às instituições públicas ou privadas.

Confesso que permaneci em silêncio por alguns instantes, tentando organizar uma resposta que estivesse à altura da superficialidade do argumento. Limitei-me a dizer: “ao menos teremos Uber com assunto”. A frase encerrou a conversa naquele momento, mas o tema continuou ecoando em minhas reflexões.

Retornei, então, ao ano de 2003, quando ingressei no ensino superior em Patos de Minas. À época, havia poucas instituições e um número restrito de cursos. O governo federal daquele período investia na interiorização do ensino superior, ampliando o acesso, financiando a abertura de cursos e flexibilizando processos avaliativos. Desde então, o cenário mudou significativamente. A cidade passou a contar com diversas instituições, cursos presenciais, semipresenciais e a distância. O ensino superior se expandiu e se diversificou.

Diante dessa transformação, surge uma pergunta recorrente: a população melhorou? O nível de conhecimento se ampliou? A resposta, do ponto de vista cognitivo e cultural, é afirmativa. O ensino superior não garante emprego, não assegura ascensão social automática e tampouco confirma a ideia simplificada de meritocracia, como se todos partissem das mesmas condições. A universidade não opera milagres, nunca operou. Contudo, ela desloca o indivíduo. Amplia horizontes, forma profissionais em diferentes áreas, promove o contato com o pensamento científico, com a diversidade de ideias e com o exercício do questionamento fundamentado.

Esse processo, evidentemente, pressupõe envolvimento e disposição para aprender. Ainda assim, é inegável que Patos de Minas se transformou positivamente a partir da instalação e consolidação das instituições de ensino superior. Trata-se de um fato observável: formação de profissionais qualificados, circulação de conhecimento, fortalecimento de serviços e impacto direto no desenvolvimento local e regional.

Entretanto, é indispensável destacar que o ensino superior não se sustenta sem uma educação básica sólida. A universidade não corrige, sozinha, lacunas estruturais deixadas por um ensino fundamental e médio fragilizados. A educação básica é o alicerce sobre o qual todo o sistema educacional se constrói. Investir nela é condição para que o ensino superior cumpra plenamente sua função social. Sem leitura, escrita, interpretação e pensamento lógico bem desenvolvidos desde os primeiros anos escolares, o acesso à universidade torna-se desigual e, muitas vezes, meramente formal.

Defender o ensino superior, portanto, não é uma questão corporativa, nem resultado de uma trajetória profissional pessoal. Trata-se do reconhecimento de sua função social articulada à educação básica: formar cidadãos com repertório intelectual, capacidade crítica e condições de compreender a complexidade do mundo contemporâneo. Em tempos de polarização, debates superficiais e excesso de informações descontextualizadas, a formação acadêmica, especialmente quando apoiada por uma boa base educacional,  amplia a capacidade de análise e reduz a adesão acrítica a discursos vazios.

O mundo mudou. O acesso à informação é amplo e imediato. Contudo, saber acessar, interpretar, comparar e contextualizar informações continua sendo um aprendizado sistemático. No fim das contas, estudar não assegura status social nem renda elevada. Garante, ao menos, repertório. E em uma sociedade cada vez mais ruidosa, marcada por opiniões rápidas e pouco fundamentadas, possuir repertório faz diferença, seja na sala de aula, na pesquisa, no trabalho, no transporte por aplicativo ou em qualquer outro espaço social.