Uma mulher que sofreu uma sequência de agressões violentas do ex-companheiro está amedrontada após a Justiça conceder a ele o direito de recorrer em liberdade. A vítima, que quase perdeu a vida durante o ataque, disse ao Patos Hoje que está em pânico com a possibilidade de o agressor voltar a circular livremente. Apesar da liberdade, ele terá que cumprir uma série de medidas restritivas.
O caso aconteceu na noite de 4 de julho de 2026, na comunidade rural de Arraial dos Afonsos, em Patos de Minas. Segundo a decisão encaminhada pela vítima para o Patos Hoje nessa quinta-feira (10) , o homem foi condenado por duas agressões contra a ex-companheira, no contexto de violência doméstica.
A violência começou durante uma festa de Folia de Reis. Conforme o depoimento da vítima reproduzido na sentença, depois de uma discussão, o acusado a perseguiu e a atropelou com uma motocicleta. Em seguida, teria descido do veículo, segurado os cabelos dela e desferido um soco em seu rosto. A mulher estava com o filho do casal, de apenas dois anos, no colo.
A agressão, porém, não terminou ali. Na sequência, já na propriedade onde o casal residia, o homem teria atropelado a vítima novamente. Depois, segundo o relato acolhido na sentença, passou a agredi-la com socos e a perseguiu por aproximadamente 200 metros, arrastando-a pelos cabelos e batendo sua cabeça contra estacas enquanto ela carregava a criança.
Dentro da residência, a violência continuou. A sentença registra que o acusado desferiu joelhadas no rosto da vítima, mordeu-a, arrancou seus cabelos e chegou a ordenar ao próprio filho que buscasse uma faca, dizendo que iria matar a mãe da criança. Ele teria colocado a faca contra a barriga da mulher, que conseguiu reagir e afastar o objeto.
O exame de corpo de delito confirmou a dimensão das agressões. Foram constatadas equimoses ao redor dos olhos, edema no rosto, escoriações em diversas partes do corpo, ferimentos na mão, lesões compatíveis com mordidas e, ainda, cabelos arrancados apresentados pela própria vítima durante o exame.
“Quase morri”, diz vítima
Em conversa com o Patos Hoje, a vítima afirmou que quase morreu durante as agressões e que a notícia da liberdade do ex-companheiro provocou novamente medo e insegurança. Ela destacou que, depois de tudo o que sofreu, está em estado de pânico com a possibilidade de encontrá-lo novamente.
O temor ocorre justamente após a decisão que reconheceu a gravidade da violência. Na sentença, o juiz classificou as circunstâncias do crime como “profundamente gravosas” e destacou a progressão da violência, os dois atropelamentos, a perseguição, o fato de a vítima ter sido arrastada pelos cabelos, a ameaça com faca e as promessas de morte.
A própria sentença também registra que a vítima sofreu “severo abalo emocional e psicológico” e precisou de atendimento hospitalar de urgência.
Um dos policiais militares que atendeu a ocorrência afirmou durante a audiência que, em mais de dez anos de serviço, aquela havia sido uma das piores ocorrências relacionadas à violência contra a mulher que já havia atendido. A vítima foi encontrada em intenso estado de abalo físico e emocional.
A decisão judicial condenou o companheiro a 2 anos e 11 meses de reclusão, em regime inicial semiaberto, pela prática de duas agressões no contexto de violência doméstica. A sentença considerou, entre outros fatores, a intensidade da violência empregada e as graves consequências para a vítima. Apesar da condenação, o juiz entendeu que não estavam presentes, naquele momento, os requisitos para manutenção da prisão preventiva. Por isso, determinou a expedição do alvará de soltura e reconheceu ao réu o direito de recorrer em liberdade.
A liberdade, entretanto, não significa ausência de medidas de proteção à vítima. A sentença determinou monitoração eletrônica por tornozeleira, estabeleceu restrições de distância e contato e determinou que os locais relacionados à vítima sejam cadastrados como áreas de exclusão. O descumprimento das medidas poderá resultar em nova prisão preventiva. A Justiça também determinou que a vítima receba uma unidade portátil de rastreamento, conhecida como botão do pânico, para reforçar sua proteção.
O caso evidencia o drama vivido por mulheres que, mesmo após sobreviverem a episódios extremos de violência doméstica, continuam convivendo com o medo depois que o agressor deixa a prisão. No caso de Arraial dos Afonsos, a vítima afirma que, depois de ter sido atropelada, espancada, arrastada pelos cabelos e ameaçada de morte, a liberdade do ex-companheiro fez o medo voltar com muita força.
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