O câncer é uma das doenças mais graves e causa profundo sofrimento. A enfermidade exige tratamento prolongado, exames, acompanhamento médico e, em muitos casos, provoca grande impacto emocional e financeiro em toda a família. Impossível não se comover e se mostrar solidário. No entanto, as pessoas de bom coração precisam estar em alerta. Uma mulher em Patos de Minas foi indiciada por estelionato por ter inventado que teria sido acometida pela doença e fazer campanha para arrecadar dinheiro e outras doações.

A Polícia Civil concluiu pelo indiciamento após investigação sobre uma suposta campanha de arrecadação de doações nas redes sociais para um tratamento de câncer que, segundo as diligências realizadas, não foi localizado nos registros da rede pública de saúde.

O caso teve origem em uma ocorrência registrada pela Polícia Militar em 20 de maio de 2026, depois que uma pessoa procurou as autoridades para relatar um possível golpe envolvendo a acusada. Segundo o boletim, as publicações feitas nas redes sociais afirmavam que a mulher estaria enfrentando um câncer sem apoio da família e que teria viajado para Barretos (SP) para realizar radioterapia.

De acordo com o relatório policial, uma amiga da acusada teria divulgado fotos e vídeos sobre o suposto tratamento e pedido doações de prendas para a realização de uma rifa nas redes sociais. Também teria sido divulgada uma chave Pix vinculada à suposta doente para o recebimento de dinheiro. Depoimentos confirmaram a campanha.

A denúncia inicial partiu de familiares que passaram a questionar a veracidade das informações divulgadas. Uma das testemunhas relatou à Polícia Militar que entrou em contato com unidades hospitalares de Barretos e não encontrou registro de tratamento da acusada naquela cidade. Também houve consulta à rede pública de saúde de Patos de Minas, sem localização de registro de tratamento oncológico.

Houve relato ainda que realizou contatos com diferentes unidades de saúde de Patos de Minas e com instituições de Barretos para verificar se ela havia passado por tratamento ou atendimento nesses locais. Segundo seu depoimento, não foram encontrados registros que confirmassem a versão divulgada nas redes sociais.

Durante a investigação, a amiga dela foi ouvida pela Polícia Civil. Conforme o relatório, ela afirmou conhecer a acusada havia aproximadamente 15 anos e disse que acreditava que a amiga realmente estivesse com câncer.

A amiga contou que ela e outras pessoas chegaram a fazer doações para a acusada. Segundo seu depoimento, o irmão teria realizado um Pix de R$ 300, além de uma transferência feita pela própria amiga. Ela também relatou que, acreditando na doença, publicou uma campanha em seu perfil no Instagram pedindo ajuda financeira para o suposto tratamento.

Ainda segundo o depoimento, a amiga passou a desconfiar da história depois de identificar inconsistências nas informações apresentadas pela acusada. Ela afirmou que chegou a receber uma fotografia de um quarto que teria sido apresentado como sendo em Barretos, mas considerou que o local apresentava características incompatíveis com um ambiente hospitalar.

Um dos principais elementos reunidos pela investigação foi a resposta da Secretaria Municipal de Saúde de Patos de Minas a um ofício da Polícia Civil. Segundo o documento, a acusada possui cadastro no sistema municipal de saúde e registros de atendimentos na rede pública, principalmente em unidades de urgência e emergência. Entretanto, não foram localizados registros de acompanhamento ou tratamento oncológico, nem encaminhamentos para consultas, exames, tratamentos ou acompanhamento em hospitais especializados em oncologia.

Também não foram encontrados documentos administrativos relacionados à assistência oncológica ou registros de solicitação, autorização ou concessão de Tratamento Fora do Domicílio (TFD) em favor da investigada.

A Polícia Civil informou que a acusada foi intimada para prestar declarações na condição de investigada em 31 de julho de 2026. Conforme o relatório, ela não compareceu à unidade policial e não entrou em contato para justificar a ausência.

No atendimento inicial da Polícia Militar, porém, a acusada havia afirmado que realizou exames de ressonância magnética e tomografia do crânio em um hospital de Patos de Minas, nos quais teria sido constatado um quadro de cefaleia. Ela também disse ter realizado uma biópsia da mama direita e que aguardava o resultado, mas, segundo o registro policial, não confirmou estar diagnosticada com câncer. Na mesma ocasião, ela teria afirmado que a amiga era responsável pela produção e publicação dos vídeos e negou ter recebido doações em dinheiro por Pix. Disse ainda que as publicações haviam sido retiradas das redes sociais.

Porém, após analisar os depoimentos, documentos e diligências realizadas, a autoridade policial concluiu pela existência de elementos suficientes de materialidade e autoria e indiciou a acusada pelo artigo 171, do Código Penal, crime de estelionato com pena de reclusão de 1 a 5 anos e multa.

Com o encerramento da investigação, os autos foram encaminhados à Justiça para apreciação e ao Ministério Público para as providências cabíveis. O indiciamento, por si só, não significa condenação: a eventual responsabilização criminal dependerá da análise do caso pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário, assegurados à investigada o contraditório e a ampla defesa.