Bullying nas escolas de Patos de Minas: um sofrimento silencioso que pode sair caro para os pais
Em 2025, a Polícia Militar registrou diversas ocorrências formais envolvendo bullying e agressões entre alunos em instituições de ensino da cidade, conforme documentos oficiais aos quais a reportagem teve acesso.
A violência escolar em Patos de Minas deixou de ser tratada como "simples brincadeira de criança". Em 2025, a Polícia Militar registrou diversas ocorrências formais envolvendo bullying e agressões entre alunos em instituições de ensino da cidade, conforme documentos oficiais aos quais a reportagem teve acesso. Os casos, que vão de xingamentos racistas a agressões físicas, até com óculos quebrados a tapas, acendem um alerta para pais e educadores: o bullying deixa marcas profundas e, na Justiça, a conta pode sair cara para os responsáveis.
O primeiro caso que o Patos Hoje teve acesso aconteceu em de abril do ano passado, quando a Polícia Militar foi até uma Escola Municipal e registrou um caso de bullying contra um menino de 11 anos. No boletim de ocorrência, os policiais classificaram a situação como racismo. O agressor, um colega de 12 anos, utilizou meios eletrônicos para praticar a intimidação.
Em maio, a situação foi ainda mais grave em uma escola estadual. Um menino de 11 anos chegou em casa após as aulas e contou à mãe que havia sido agredido fisicamente por um colega, que lhe deu um tapa no rosto dizendo "você não presta para nada". Segundo o relato da vítima, a situação era constante. Outros alunos o teriam chamado de "macaco", "carvão" e "esterco", além de arremessarem seu material escolar no chão. A mãe retornou à escola com o filho e acionou a direção. O diretor informou à PM que tomaria medidas disciplinares e acionaria o Conselho Tutelar.
Já em agosto, a PM foi acionada em outra Escola Estadual onde uma adolescente de 15 anos relatou que sofre bullying constante de um colega de 14 anos, desde que havia chegado à escola. Segundo ela, o aluno insistia em chamá-la de "Cabelo de Bombril", mesmo após ela pedir para que parasse, alegando se sentir constrangida. A situação fugiu do controle quando, na saída da escola, uma briga generalizada começou. A jovem tentou chutar o agressor, que a agarrou pelo pescoço. Na confusão, os óculos do menino foram quebrados. Ambos foram conduzidos à delegacia.
Já em dezembro, o drama se repetiu em outra Escola Estadual. Uma menina de 11 anos foi vítima de ataques verbais dentro da sala de aula. Segundo o relato dos militares, a aluna foi chamada de "Cavala" por uma colega e teve sua aparência física ridicularizada com a pergunta: "Sua boca tem botox?". O pai da vítima procurou a escola afirmando que não era a primeira vez que a filha reclamava de maus-tratos por parte dos colegas.
Os casos de bullying causam feridas que duram uma vida e refletem uma realidade alarmante. Especialistas mostram que os casos são frequentes e os impactos são devastadores. As consequências podem incluir depressão, ansiedade, transtorno dismórfico corporal, síndrome do pânico e até ideação suicida. Apesar da dor, muitos jovens preferem se calar, seja por medo, vergonha ou pela sensação de que nada será feito. Quando contam, o primeiro recurso são os pais — não a escola.
Diante desse cenário, especialistas reforçam que a omissão não é mais aceitável. O advogado Farley Júnio Rocha alerta que o ordenamento jurídico brasileiro já prevê punições severas para os casos de bullying, não apenas para os agressores, mas também para os pais e para as escolas que se omitem.
“A escola tem o dever constitucional de zelar pela integridade física e emocional dos alunos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Código de Defesa do Consumidor (CDC) garantem que as instituições de ensino respondam objetivamente pelos danos causados pela omissão. Isso significa que, independentemente de culpa, a escola pode ser condenada a indenizar a vítima se não tomar providências para coibir o bullying”, informou.
Muitos pais de agressores se surpreendem ao descobrir que podem ser financeiramente responsabilizados pelas ações dos filhos. Em julgamentos recentes, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) manteve a condenação solidária de pais e colégios ao pagamento de indenizações às vítimas bullying.
O advogado Farley Júnio Rocha orientou que o caminho correto é denunciar a agressão formalmente à escola, exigindo providências por escrito, acionar o Conselho Tutelar, registrar um boletim de ocorrência e ajuizar ação contra a escola e os responsáveis pelas agressões. Os pais também devem buscar apoio psicológico para as crianças vítimas.