Escritora patense tem conto selecionado para coletânea internacional sobre maternidade real

Formada em Biotecnologia pela UFU e consultora de moda, Priscila escreveu o conto “A Outra Margem” para uma convocatória da editora, que buscava textos que retratassem a maternidade real.

A escritora patense Priscila Matos vai fazer parte de uma coletânea de contos sobre maternidade real, que será publicada pela editora colombiana “Palavra Ferida”. Formada em Biotecnologia pela UFU e consultora de moda, Priscila escreveu o conto “A Outra Margem” para uma convocatória da editora, que buscava textos que retratassem a maternidade real.

Priscila é casada e mãe de duas crianças, Filipe e Sofia. As experiências e as dores vividas durante as gestações e a maternidade inspiraram o texto, que recebeu nota máxima dos jurados.

Confira!

A outra margem – Priscila Matos

No começo, ela acreditou que estava apenas esperando um bebê. Só mais tarde descobriria que, na verdade, seria uma travessia. A estranheza e o encantamento dançavam uma valsa lenta e envolvente, enquanto ela se misturava a melodia.  Havia uma vida crescendo dentro dela, mas essa ideia parecia assombrosa e maior do que qualquer explicação possível.

Entre um pensamento e outro, sentia pequenos movimentos sob a pele como quem percebe um peixe riscando a superfície de um lago ao entardecer. Sabia que ele estava ali. Ainda assim, havia dias em que tudo lhe parecia um sonho emprestado. Também sentiu outra coisa nascer dentro dela, mas o que era? Tão familiar e ao mesmo tempo tão diferente...

As pessoas, porém, falavam como quem conhece o mapa de um lugar onde nunca se perdeu. Dorme agora, porque depois você nunca mais vai dormir. Parto normal é melhor. Está louca? Cesárea é mais seguro. Compra berço. Não compra. Carrinho caro. Nem precisa, eles não gostam. Essa chupeta. Aquela mamadeira. Cada conselho era oferecido como uma bússola definitiva. E ela, cercada de bússolas apontando para direções diferentes, já não sabia onde ficava o norte. No silêncio, perguntava a si mesma qual daquelas vozes era realmente sua. E aos poucos percebia que sua voz se perdia, se confundia.

A gravidez foi gentil. Apenas no fim o corpo resolveu lembrá-la de uma verdade antiga: tudo o que merece nascer precisa atravessar alguma dor. Então vieram as contrações. E, de repente, o mundo ficou pequeno para caber dentro daquele quarto de hospital.

O filho nasceu. Pequeno e quente. Não era um brinquedo ou uma boneca. Era assustadoramente real! O corpo, surrado pelo clamor da vida, suplicava por um momento de paz. A desordem era agora sinônimo de si mesma. Imaginava que, depois do parto, finalmente descansaria, mas descobriu que o cansaço também sabe nascer.

Era uma fadiga que não morava apenas nos músculos. Habitava os pensamentos. Pesava nas pálpebras. Fazia o tempo escorrer devagar. Mesmo exausta, não conseguia dormir. Adrenalina? Dor, ansiedade, medo? Não sabia dizer. Fechava os olhos por alguns segundos e uma sucessão infinita de medos se sentava ao lado da cama. E se ele parar de respirar? E se eu não ouvir? E se alguma coisa acontecer enquanto eu descanso?

Já em casa, o sono parecia um luxo reservado às pessoas que ainda não conheciam o amor em sua forma mais vulnerável. Depois de três noites praticamente acordada, teve vontade de perguntar ao mundo inteiro: por que ninguém me contou? Como é que as pessoas sobrevivem a isso? O relógio perdeu o sentido.

As mamas, antes tão desejadas, agora inchadas e doloridas, deitavam o suco da vida. E tão fraco é o leite da vida, que quando terminava uma mamada, já era hora da outra. Ela chorava enquanto o bebê chorava, e havia momentos em que não sabia qual dos dois precisava mais de colo.

Sentia vergonha do próprio medo. Era uma desonra para as mães não saber, sentia-se intimidada pela ignorância. Vergonhoso era pedir ajuda.

Aquele corpinho frágil a assombrava com tanta vida. Pele fina como papel, ossos moles e olhos assustados. Era um monstro que amava e temia; não por ele, mas por ela.  Quinze dias depois, ainda não conseguia dar banho no filho sozinha. Chamava a mãe. Chamava o marido. E, toda vez que alguém segurava o bebê em seu lugar, ela acreditava estar fracassando em alguma prova invisível que todas as outras mulheres pareciam ter passado com facilidade.

No entanto, a vida reserva o alento, mesmo que para nós ele pareça impossível. Encontrou uma amiga. Também mãe. Também sobrevivente. Contou, quase pedindo desculpas, que ainda não conseguia dar banho no próprio filho.

Esperava ouvir um conselho. Recebeu apenas um sorriso.

— Vai ter muito banho pela frente.

Só isso. Sem técnica. Nenhuma aula.

Apenas uma frase tão simples que parecia pequena demais para carregar tanto sentido. Naquela noite, ela compreendeu algo que ninguém havia conseguido ensinar durante todos aqueles meses.

A vida não nos pede perfeição no primeiro dia. O que ela espera de nós é coragem, presença. Há coisas que não se aprende antes. Só se aprende fazendo e errando. Recomeçando. Respirando fundo e tentando não surtar diante do fracasso.

Há banhos que fazem as pernas tremerem nas primeiras semanas e, anos depois, tornam-se lembranças. Há noites que parecem eternas e, um dia, desaparecem sem que a gente perceba. Há medos que envelhecem antes de nós. Crescer é descobrir que a felicidade nunca vem sozinha. Ela costuma vir de mãos dadas com o medo e abraçada com a dúvida. Não porque a vida seja cruel. Mas porque nenhuma alegria verdadeira nasce pronta. Ela precisa atravessar o tempo, a insegurança e o esforço para aprender a permanecer.

Naquele dia, segurando o filho ainda pequeno, ela finalmente entendeu que nunca existiria uma margem onde tudo fosse fácil. A travessia era a própria vida. E, curiosamente, era também nela que morava toda a beleza.

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